Imigração do povo português em França

A imigração portuguesa na França não é tão recente como possa parecer. O fluxo de imigração portuguesa rumo à França começou a se intensificar já na época da Primeira Guerra Mundial, mais precisamente no ano de 1916, quando Portugal envia corpo expedicionário e 20.000[1] trabalhadores ao país, por meio de uma convenção de mão-de-obra franco-portuguesa. Muitos portugueses ficam no território e passam a chamar compatriotas. Consolida-se uma primeira rede de migração entre os dois países.

Tal permanência de trabalhadores imigrantes interessava à França, pois vinha num período de nascimento de poucas crianças e de muitas grandes perdas humanas por causa da Primeira Guerra, o que deixou o país com uma grande falta de mão-de-obra.

Em 1926, acontece o golpe de estado militar português, por meio do qual Salazar instala no país um governo ditatorial que dura até 25 de abril de 1974, sendo que o primeiro grupo de exilados políticos portugueses parte rumo à França. Tal fato marca maior contato ideológico entre os dois países e conseqüente troca de influências políticas e culturais.

Na década de 30, a crise econômica francesa faz muitos portugueses retornarem a Portugal. Em contrapartida, o governo francês gratifica aqueles que ficam com o direito à naturalização, constituindo-se um importante passo para os portugueses com relação ao reconhecimento de sua contribuição para a sociedade francesa.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1940-1944), a França sofre com falta de mão-de-obra e algumas empresas francesas passam a recrutar portugueses. O governo salazarista, no entanto, freia emigrações, incentivando uma enorme rede de emigrações clandestinas.

Ainda assim, o governo francês insiste em criar mecanismos de atração de mão-de-obra estrangeira, oficializando, em 1945, o “Office National d´Immigration” (Ofício Nacional de Imigração), encarregado de organizar e de controlar o recrutamento de trabalhadores e a vinda de suas famílias. Diante de tais incentivos, como o número de saídas de portugueses estava aumentando, o governo português reage, criando a “Junta de Emigração”, encarregada pelo controle de passaportes.

Em 1956, os portugueses já eram o terceiro grupo de imigrantes, depois de italianos e espanhóis. No mesmo ano, tem início a construção do “bidonville” de Champigny, criada devido a interesses comuns entre “passadores”, “alojadores” e “mercadores de sono”. O “passador” era a pessoa que facilitava a transposição clandestina de fronteiras; o “alojador” o responsável pelo alojamento do imigrante recém-chegado à França dentro do “bidonville”; e o “mercador de sono”, patrões que pagavam salários miseráveis aos portugueses recém-chegados e os obrigando a trabalhar muitas horas, aproveitando-se do fato de não terem papéis.  

Champigny, localizada na cidade de Champigny-sur-Marne, na periferia sudeste de Paris, chegou a ter mais de 14.000 habitantes, sendo grande parte imigrantes portugueses. Era muito interessante ter um local único para a concentração de imigrantes que, ignorando tudo do país ao qual chegavam, estavam cada vez mais presos nas mãos dos “mercadores de sono”.

O primeiro obstáculo que os imigrantes portugueses enfrentavam ao chegar à França era a língua. Esses imigrantes tinham em média de 2 a 3 anos de escolarização, sendo que alguns eram mesmo analfabetos. Uma das razões que levava os portugueses à emigração clandestina, era o fato de o governo português exigir 3 anos de estudo para a obtenção do passaporte de emigrante.

Em 1957, pelo Tratado de Roma, é criada a Comunidade Econômica Européia (CEE). Este fato fez com que o grande fluxo de emigração portuguesa para países de além-mar, como o Brasil, desse lugar, definitivamente, a uma massiva emigração a países industrializados da Europa.

Na época do Tratado, as áreas de atuação dos portugueses eram a indústria agrícola e alimentar, materiais de construção, fundição, construção elétrica ou mecânica, móveis, construção civil (que empregava 44% dos assalariados masculinos).

Em 1962 já eram 50.000 o número de portugueses na França, sendo que a maioria se concentrava massivamente em grandes regiões industriais, principalmente na região parisiense (quase a metade deles), seguida das regiões de Lyon, Clermont-Ferrand, Grenoble e norte da França.

Em 1964, a Lei Debré propõe destruição dos “bidonvilles”. No entanto, ainda em 1965, o jornal “Presença Portuguesa”, publicação mensal de oposição à Guerra Colonial Portuguesa, divulgou que 15.000 dos 40.000 portugueses na França moravam nos “bidonvilles”. Só em 1966 a lei passa a ser colocada em prática, sendo que os últimos barracos perduraram durante os anos 70.

Em 1967, “O Salto”, filme sobre a situação dos imigrantes portugueses na França, choca o país, revelando a maneira como se sujeitavam a entrar na França: a “saltos”, pulando de fronteira em fronteira, com longos percursos a pé, enfrentando o frio dos Pireneus e a fome e pagando altos valores a “passadores”. Ainda, o filme mostra que, após os “saltos”, tais imigrantes passavam a viver em barracos sem as mínimas condições de higiene, aceitando salários ínfimos propostos pelos “mercadores de sono”.

Em 1968, o número de portugueses na França já era contabilizado em 500.000, um aumento de 1.000% em apenas 6 anos.

No decorrer dos anos 60 e até a queda da ditadura e o fim da Guerra Colonial em Angola, Guiné Bissau e Moçambique, o exército português avaliou em 150.000 o número de jovens que se negaram a servir do exército. Para muitos deles, apoiados por seus pais, essa guerra não lhes pertencia. Muitos dos que se opuseram à ditadura salazarista, que escolheram o exílio no momento de serem incorporados ao serviço militar, não pediram o status de refugiados políticos, temendo serem pegos pela polícia francesa e/ou portuguesa.

O escândalo da guerra colonial portuguesa, que se prolongava enquanto todas as outras colônias já tinham se tornado independentes, fazia com que franceses apoiassem portugueses. A partir de 1968, muitas publicações apareceram na França fazendo oposição ao governo salazarista: “O Proletariado”, “A Voz do Desertor”, “O Salto”, “Lula”. E muitos intelectuais conhecidos aceitaram ser responsáveis por essas publicações (Sartre, Marguerite Duras, François Chatelet, o Padre Cardonnel, etc.).

Mesmo com tal movimento intelectual e político português e o apoio de grandes intelectuais franceses, somente a partir de 1972 a situação para os jovens portugueses exilados na França tornou-se melhor. A maioria deles fugiu da severa polícia política portuguesa, a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado).

Em 1974, começa a se observar a suspensão de apoio à imigração por parte do governo francês, por meio de encorajamento de retornos voluntários e da inserção dos imigrantes já estabelecidos, dentro de um contexto de um país em crise econômica e onde não há mais o problema de falta de mão-de-obra.

Em meio a esse cenário político, no mesmo ano, a Língua Portuguesa passa a ser ensinada na escola pública francesa, como fruto do primeiro acordo bilateral para ensino integrado de línguas nacionais (1973). Mais à frente, em 25 de abril, tinha fim a Guerra Colonial e a ditadura salazarista. No entanto, diante de um país arrasado social e economicamente, as partidas clandestinas rumo à França não cessaram.

Ainda em 74, associações portuguesas na França ganham força, com a multiplicação dos cursos de Português no país, assim como bibliotecas, jornais portugueses, grupos folclóricos, grupos musicais e teatrais e rádios locais.

Em 1982, o número de imigrantes portugueses na França já era 764.860, maior grupo de imigrantes por nacionalidade. Portanto, de 62 a 82, passou de 50.000 a 764.860, um aumento de 1.529,72%, mais de 15 vezes.

Ainda em 82 havia 896 associações culturais portuguesas recenseadas pela embaixada de Portugal na França. Uma comunidade dinâmica, mostrando a cultura portuguesa aos franceses.

Em 1986, com a entrada de Portugal na Comunidade Européia, a vida dos portugueses em França se torna mais fácil do ponto de vista burocrático para a estadia no pais.

Isso encoraja a vinda de portugueses para a França o que explica o fato de que em 1999 tenham sido contados 571. 874 portugueses, 13,3% do total de imigrantes, mantendo-se ainda maior grupo de imigrantes por nacionalidade, ao lado de argelinos. Em 2004-2005, o número de imigrantes portugueses em França teve uma pequena queda em relação a 1999, sendo que os portugueses passaram a ser o terceiro grupo de imigrantes atrás de marroquinos e, em primeiro lugar, argelinos.

Uma pesquisa divulgada em 2006, diz que somente na região de Île-de-France, zona que ainda concentra maior numero de imigrantes portugueses, 242 000 portugueses estariam instalados, segundo dados oficiais. Tal numero parece ser muito inferior ao apontado por certos órgãos portugueses.

Os imigrantes portugueses são considerados pelos franceses como bons trabalhadores, habilidosos e respeitosos. A vontade de integração que possuem é notada pelo fato concreto de muitos terem casado com franceses, decidido viver definitivamente em França, aprendido bem a língua francesa, criado, enfim, laços outros que o interesse em guardar um “dinheirinho”. Para muitos a França tomou espaço em seus corações, mas claro que Portugal sempre é o pais amado. E esse amor é transmitido de geração a geração, mesmo àqueles nascidos e criados em solo francês. A maior lição dessa historia é que partir nem sempre é perder uma terra, pode ser ganhar duas no coração!



 

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